História da Sé Catedral de Faro
Das Origens à Construção Medieval
A Sé Catedral de Faro, também conhecida como Igreja de Santa Maria, foi construída após a reconquista de Faro aos mouros pelos cristãos em 1249, durante o reinado de D. Afonso III. O templo foi erguido sobre os vestígios de uma basílica paleocristã que, durante o período árabe, foi convertida em mesquita.
Na época árabe, ao antigo nome romano de Ossónoba junta-se, depois do séc. IX, a referência a Santa Maria do Ocidente de lbn Harun e, mais tarde, de Faaron. Em 1251, dois anos após a reconquista, o Arcebispo de Braga, D. João Viegas, iniciou a construção da igreja, dedicada à Nossa Senhora. Em 1271, o templo foi entregue à Ordem de S. Tiago, como recompensa pelos serviços prestados na tomada da povoação.
Durante o reinado de D. Dinis, a partir de 1321, a igreja passou por uma nova campanha de obras, sendo ampliada e reformulada. Do edifício original dos sécs. XIII e XIV, ainda se conservam alguns elementos arquitetónicos, como a torre sineira e as duas capelas do cruzeiro. No séc. XV, o templo sofreu novas remodelações, das quais ainda restam vestígios medievais, como o pórtico, a torre, as capelas laterais do transepto com abóbadas de arcos cruzados e uma porta lateral interior.
Elevação a Catedral
Em 1577, durante o episcopado do bispo-humanista D. Jerónimo Osório, a igreja foi elevada a Sé Catedral, tornando-se sede da Diocese do Algarve após a transferência do bispado de Silves para Faro.
O Ataque Inglês de 1596
No entanto, em 1596, a cidade foi invadida pelas tropas inglesas lideradas por Robert Devereux, 2º Conde de Essex, que saquearam e incendiaram a igreja, destruindo grande parte do seu interior, incluindo os altares e os tetos de madeira.
A Reconstrução Barroca
Após este ataque, iniciaram-se extensas obras de reconstrução, durante as quais foram introduzidas colunas de ordem dórica que sustentam os arcos de volta perfeita, separando as três naves do edifício. Nos sécs. XVII e XVIII, a igreja foi enriquecida com talha dourada e elementos decorativos barrocos, que hoje representam um dos conjuntos mais valiosos da época no Algarve.
Terramotos e Restauros
Os terramotos de 1722 e 1755 causaram novos danos ao edifício, obrigando a sucessivas obras de restauro, que alteraram significativamente a sua traça primitiva.
A Catedral Hoje
Atualmente, a Catedral de Faro apresenta uma planta longitudinal com três naves de quatro tramos, separadas por colunas dóricas, uma cabeceira tripartida de traçado retangular e uma capela-mor coberta por caixotões. O acesso principal faz-se através de uma galilé quadrangular que antecede o portal em arco quebrado, situado sob a torre sineira. A fachada norte possui um portal com frontão recortado, decorado com trabalhos de argamassa, e uma porta ogival de madeira almofadada. A torre sineira, que resistiu às várias destruições, constitui hoje um dos melhores miradouros da cidade de Faro.
A Catedral é a igreja-sede do Bispo do Algarve, neste momento, D. Manuel Neto Quintas.
Linha do Tempo
Período Paleocristão
Basílica paleocristã original
Primeiros cristãos em Ossónoba
Período Islâmico (Séc. VIII-XIII)
Conversão em mesquita
Santa Maria do Ocidente de Ibn Harun Faaron
1249 – Reconquista Cristã
D. Afonso III conquista Faro
1251 – Início da Construção
D. João Viegas, Arcebispo de Braga
Igreja dedicada a Santa Maria
1271 – Entrega à Ordem de Santiago
Recompensa pelos serviços na reconquista
1321 – Ampliação
Reinado de D. Dinis
Nova campanha de obras
Século XV – Remodelações
Pórtico, capelas laterais
Porta lateral interior
1577 – Elevação a Catedral
D. Jerónimo Osório
Transferência da sede de Silves
1596 – Ataque Inglês
Robert Devereux, 2º Conde de Essex
Destruição de altares e tetos
Séc. XVII – Reconstrução Barroca
Colunas dóricas
Início das capelas barrocas
Séc. XVIII – Época Dourada
Enriquecimento com retábulos
Azulejos polícromos
Órgãos históricos
1722 e 1755 – Terramotos
Danos estruturais
Novos restauros
Século XX-XXI – Preservação
Classificação como Monumento Nacional
Restauros modernos
Valorização turística
Figuras Históricas
D. João Viegas de Portocarreiro
Arcebispo de Braga que iniciou a construção da igreja em 1251
D. Jerónimo Osório (1564–1580)
Bispo-humanista que elevou a igreja a Catedral em 1577. Considerado o “Cícero português”, foi um dos maiores intelectuais do Renascimento português.
D. Francisco Barreto I (1636–1649)
Mandou construir a Capela de Nossa Senhora da Assunção (1640) e a Capela do Santíssimo Sacramento.
D. António Pereira da Silva (1704–1715)
Mandou construir a Capela de São Vicente e das Relíquias, onde se encontra o seu túmulo.
D. Simão da Gama (1685–1703)
Mandou construir a Capela de Nossa Senhora do Rosário e o Panteão Episcopal.
Ordem Cronológica dos Bispos da Diocese do Algarve
Bispos de Ossónoba
Bispos do Algarve – sede em Silves
Bispos do Algarve – sede em Faro
Vicente (306, 314)
Itácio Claro (380)
Pedro (589)
Saturnino (653)
Exarno (666)
Belito (683)
Agrípio (688, 693)
D. Nicolau (1189-1191)
D. Frei Roberto (1253-1261)
D. Garcia (1261-1268)
D. Frei Bartolomeu (1268-1292)
D. Frei Domingos Soares (1292-1297)
D. João Soares Alão (1297-1310)
D. Afonso Anes (1312-1320)
D. Pedro (1322-1333)
D. Frei Álvaro Pais (1333-1352)
D. Vasco (1354-1367)
D. João (1367-1370)
D. Martinho de Zamora (1371-1379)
D. Pedro (1383)
D. Paio Gonçalves de Meira (1384)
D. João Afonso de Azambuja (1389-1390)
D. Martinho Gil (1391-1401)
D. João Afonso Aranha (1404-1407)
D. Martinho Gil (1407-1409)
D. Fernando da Guerra (1409-1414)
D. João Álvaro (1414-1418)
D. Garcia de Menezes (1418-1421)
D. Álvaro de Abreu (1421-1429)
D. Rodrigo (1429-1440)
D. Rodrigo Dias ou Rodrigo Diogo (1441-?)
D. Luís Pires (1450-1453)
D. Álvaro Afonso (1453-1467)
D. João de Melo (1467-1480)
D. Jorge da Costa (1481-1485)
D. João Camelo (1486-1501)
D. Fernando Coutinho (1501-1538)
D. Manuel de Sousa (1538-1545)
D. João de Melo (1549-1564)
D. Jerónimo Osório da Fonseca (1564-1577)
D. Jerónimo Osório da Fonseca (1577-1580)
D. Afonso de Castelo Branco (1581-1585)
D. Jerónimo Barreto (1585-1589)
D. Francisco Cano (1589-1594)
D. Fernando Martins de Mascarenhas (1595-1616)
D. João Coutinho (1617-1626)
D. Francisco de Menezes (1627-1634)
D. Francisco Barreto I (1634-1649)
D. Francisco Barreto II (1671-1679)
D. José de Menezes (1679-1685)
D. Simão da Gama (1685-1703)
D. António Pereira da Silva (1704-1715)
D. José Pereira de Lacerda (1716-1738)
D. Frei Inácio de Santa Teresa (1741-1751)
D. Frei Lourenço de Santa Maria e Melo (1752-1783)
D. André Teixeira Palha (1783-1786)
D. José Maria de Melo (1786-1789)
D. Francisco Gomes de Avelar (1789-1816)
D. Joaquim de Sant’Ana Carvalho (1820-1823)
D. Frei Inocêncio António das Neves Portugal (1824)
D. Bernardo António de Figueiredo (1825-1838)
D. António Bernardo da Fonseca Moniz (1844-1854)
D. Carlos Cristóvão Genuês Pereira (1855-1863)
D. Inácio do Nascimento de Morais Cardoso (1864-1871)
D. António Mendes Belo (1884-1908)
D. António Barbosa Leão (1908-1919)
D. Marcelino António Maria Franco (1920-1955)
D. Frei Francisco Fernandes Rendeiro (1955-1966)
D. Júlio Tavares Rebimbas (1966-1972)
D. Florentino de Andrade e Silva (1972-1977)
D. Ernesto Gonçalves Costa (1977-1988)
D. Manuel Madureira Dias (1988-2004)
D. Manuel Neto Quintas (2004-presente)
Arquitetura
através dos séculos
Elementos Góticos (Sécs. XIV-XV)
Torre sineira
Capelas do transepto
Abóbadas de nervuras
Portal em arco quebrado
Porta lateral
Elementos Renascentistas (Séc. XVI)
Colunas dóricas
Arcos de volta perfeita
Fachada norte
Elementos Barrocos (Sécs. XVII-XVIII)
Retábulos de talha dourada
Azulejos polícromos
Caixotões dourados
Capelas laterais
Elementos Contemporâneos
Remodelação do presbitério (2003) por Emília Nadal Adaptação litúrgica pós-Concílio Vaticano II
Curiosidades e Lendas
O Milagre de Santa Maria
Durante o domínio árabe, a imagem de Santa Maria estava colocada nas muralhas. Após confrontos, foi atirada ao mar pelos muçulmanos. A partir daí, as redes dos pescadores vinham sempre vazias. Os muçulmanos consideraram isso punição divina e recolocaram a imagem nas muralhas. A pesca voltou a ser abundante.
A Porta que Resistiu
A porta gótica do século XV sobreviveu ao ataque inglês de 1596 e aos terramotos de 1722 e 1755.
O Relógio de Sol Medieval
Gravado na cantaria da capela gótica, é um dos mais antigos processos de medição do tempo, usado pelos religiosos para marcar as horas canónicas.
A Confraria dos Negros
A Capela de Nossa Senhora do Rosário foi sede da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, fundada no século XVI, que agrupava a significativa população africana residente em Faro.
O Túmulo Vazio
O Bispo D. António Pereira da Silva mandou construir um magnífico túmulo na Capela das Relíquias, mas faleceu antes da conclusão das obras e o seu corpo nunca foi trasladado.




